Por vezes me pego pensando em que momento os mitos começaram a tomar forma, o que os incentivou, de onde vieram, como vieram, em que foram importantes.
Os mitos, mesmo que não levados tão a sério no mundo lógico e chato de hoje, ainda assim têm uma importância fundamental na construção dele. Os planetas foram nomeados em homenagem à magnitude dos deuses romanos homônimos, Oceano era um titã; em inglês os dias da semana todos têm motivos religiosos:
“Tuesday” vem de Tewesday, que por sua vez tem origem do proto-germânico Tīwas dagaz, literalmente traduzido como “dia de Tyr”, um dos deuses da guerra na mitologia nórdica;
“Wednesday” também tem a mesma origem, vem do inglês antigo Wodnesdei, que é derivado do proto-germânico Wōdanas dagaz, “Wōdanas” vem de Woden, outro nome para Odin, o Pai de Todos na mitologia nórdica;
“Thursday” por sua vez, deriva de þursdæġ, ou þōrsdagr ou então þūrsdag (tente pronunciar qualquer uma delas por sua conta e risco), todas podem ser traduzidas ao pé da letra para “dia de Thor”, ou de maneira figurada para “dia do trovão”. O deus nórdico guardião de midgard é também a origem do nome dado ao fenômeno natural;
“Friday” tem origem do inglês antigo frīġedæġ, que remete à Frigg, esposa de Odin e deusa nórdica do amor conjugal e do lar;
e, por fim, “Saturday” vem do inglês antigo Sæternesdæg, traduzindo do latim “dies Saturni”, ou “dia de Saturno”. Pai de Júpiter e deus da agricultura e fertilidade, Saturno é o equivalente ao titã Cronos da mitologia grega.
E esses são só alguns exemplos dentro das influências mais visíveis que os mitos têm em nossa sociedade. E o engraçado é que, ainda assim, pouco sabemos sobre as grandes histórias e as lendas que formaram povos — temos contato apenas com o que a cultura pop nos mastigou ou interpretou por nós. Poucos, por exemplo, sabem que o nome verdadeiro de Hércules (que para os gregos chama-se Herácles) era Alcides. As histórias de fadas, as religiões antigas e as crenças dos homens da era clássica ajudaram a nos formar e construir a humanidade como ela pouco se enxerga hoje.
De certa maneira, prestamos bons tributos a isso por meio de filmes, livros, jogos, quadrinhos e todo tipo de manifestação que de alguma forma usa a mitologia como tema principal ou apenas um cenário sobre o qual contar sua história. Mas infelizmente ainda vemos tudo isso por cima, quase como se não tivesse feito parte fundamental do dia a dia das pessoas.
Talvez até por isso sejam tantos os mitos, porque com o passar do tempo, vamos encarando com certa visão incrédula aquilo que os povos anteriores a nós viam como realidade irrefutável, reservamos elas para as histórias de fogueira enquanto pensamos em novas lendas nossas, que se adequam à nossa realidade.
A maldade, assim como a bondade, é parte do homem, é a força que junta a matéria, a liga que segura o pó. O que diferencia as pessoas são os limites que colocamos nesse impulso, o quanto o repudiamos ou a coragem que temos. E por mais pejorativo que isso possa parecer, a maldade é fundamental na evolução e no progresso de nossa espécie. Talvez por isso tenhamos imaginado divindades tanto para explicar os fenômenos que não entendíamos quanto para censurar os desejos que nos formam. A idéia de culpar um ser maior por nossos atos e impulsos foi tentador demais para alguém não tentar e não ser copiado. Claro que também há a hipótese de que estas divindades realmente existem e estão se divertindo muito com a bagunça que criaram.
Viver é difícil, não acho que qualquer um com bom senso vá discordar. Aliás, se fosse fácil, a vida não daria motivos para boas histórias e mentiras confortáveis. Precisamos dessa loucura como motivação e inspiração, por mais que em alguns momentos doa ou nos estresse, ela nos motiva, torna melhores, valoriza os momentos de calmaria e prepara para a próxima tempestade. Mas sempre que passamos por um novo percurso espinhento, parece que a vontade sai de nosso corpo nos primeiros momentos, não é? Aquela hora em que nos perguntamos “por quê?”. E não venham com essa bobagem de “alguns não se abalam com isso”, vocês que pensam assim vivem mais da ficção que aqueles que usam a ficção para fugir. Todos são afetados de alguma forma , porque é esse o propósito, é disso que se tira a solução das coisas que acontecem.
Viver é difícil porque muitas vezes as coisas só acontecem, independente da sua vontade e do quanto se esforça pelo contrário. Pessoas queridas morrem, ou pessoas que admira te decepcionam ou mesmo se afastam e nada disso depende da sua vontade ou dos seus esforços, elas só acontecem. O pior problema disso é que a sensação de impotência que sentimos deve ser o mais próximo do afogamento que podemos passar sem estar dentro d’água, o que mina nossas energias e engole nossa vontade. Lhe faz imaginar nas alternativas que tinha para evitar, lhe faz fantasiar sobre como seria se não tivesse acontecido; mas isso não vai mudar tanto quanto você não encontrará a resposta que procura, porque estava além de suas forças. O que resta é respirar fundo e tentar superar, ou resolver sabendo que não vai mudar o que já aconteceu, mas que pode mudar o que venha a acontecer.
Asked by unitedstatesofdesires
É a terceira vez que leio Deuses. O livro é fantástico, provavelmente o melhor trabalho do Gaiman. Vale cada centavo. :)
Sempre tive a certeza de que aquelas decisões que vão transformar nossas vidas acontecem justamente no momento em que não temos nada a perder. Seja por coincidência, seja porque a elas não é justo e devido ter o status de coadjuvante, nós temos uma escolha difícil sempre que nos vemos inclinados a tomá-la não importa quão imbecil a possibilidade seja. Às vezes acontecem pro bem, outras pro mal. Com alguma sorte não saímos muito marcados disso tudo, mas certamente quando acaba, nos tornamos outra pessoa. O mais engraçado é que isso tudo acontece tão rápido que algumas vezes sequer nos damos conta da nossa vida sendo empurrada como se ela e seu estado pregresso tivessem pólos opostos. Então, como ainda nada temos a perder e nem sabemos se vamos ganhar alguma coisa nisso, só seguimos o impulso. Os resultados sempre serão interessantes, mesmo quando desagradáveis. Vamos invariavelmente aprender alguma coisa disso, pro bem ou pro mal. É quase como ouvir um disco do Motorhëad.
Pode ser que um mundo totalmente novo — mas que lá está há muito tempo — se abra para nós e talvez até nos engula. De formas que somos forçados a viver e conviver como e com pessoas diferentes que mal seríamos capazes de diferenciar das outras se passássemos por elas na rua. Pode ser que esse novo mundo se revele dentro de você, não mudando o que é, mas te apresentando uma nova forma de enxergar-se. Coisa que acontece o tempo todo, mas apenas quando importa se faz notar e que te impede de enxergar-se da mesma forma outra vez, ainda que na parte externa, pouco diferente esteja.
A todo momento passamos pela situação metafórica do homem com cabeça de búfalo, quando somos obrigados a acreditar, fechar os olhos e dar o salto de fé, ainda que tudo esteja além de nossos limites. Só quando mais nada temos a perder é que temos claridade pra crer em qualquer coisa que pode nos acontecer.
O que faria se soubesse que o que diz a bíblia é inefável, o mundo vai realmente acabar numa guerra entre o céu e o inferno onde o único papel dos humanos é ser algo próximo do dinheiro falso do Banco Imobiliário? Melhor dizendo, céu e inferno jogam War com regras adaptadas de conquista total. Provavelmente correria para fazer tudo o que sempre quis e sempre adiou, dizer a alguém que ama quando não diria em outra ocasião ou só reforçar isso para alguém já ciente.
O que não acredito é que as pessoas sentariam e esperariam, muitas certamente fariam tudo o que estivesse a seu alcance para impedir o fim do mundo, talvez até contrariar sua natureza. Outros pegariam seu carro e aproveitariam os últimos dias viajando até onde a estrada os levasse enquanto todas as suas músicas viram um The Best of Queen. Eu provavelmente manteria pessoas queridas próximas, talvez enxergasse uma oportunidade na decorrência do Apocalipse e, entre mortos, feridos, condenadoes e salvos; tentasse ver o mundo esterilizado como um lugar a ser moldado — porque querendo ou não, o limbo seria aqui.
A sensação da perda iminente e anunciada deve causar reações estranhas nas pessoas. Imaginar que tudo tem uma data marcada para acabar de uma hora para outra não é saudável mesmo para a pessoa mais equilibrada, imagino então para o mundo sensível no qual vivemos hoje. Estou certo de que os Motociclistas do Apocalipse seriam algo próximo de uma atração turística, quem sabe até uma nova fé, a crença em algo palpável que as pessoas iriam precisar numa angústia dessas, o que iria totalmente contra seu propósito.
A Revelação provavelmente sairia do controle tanto do céu quanto do inferno, porque na natureza humana está contrariar tudo o que é certo e desafiar o inefável. No fim, seria responsabilidade dos homens o destino disso tudo, em abrir mão do mundo ou segurá-lo com todas as forças. E não podemos esquecer que ainda que uma espécie cheia de defeitos, os homens conseguem ser simpáticos a sua própria maneira, o mundo que criamos poderia acabar conquistando a simpatia de um anjo, um demônio com um carro clássico e o Anticristo poderia ser nada mais que uma pessoa como qualquer outra.
A idéia veio quando, numa conversa no Twitter, o Álvaro disse que tinha conseguido ler cem livros no período de um ano. Eu costumo estabelecer metas de leitura pra mim, e nem costuma ser algo para se ultrapassar constantemente, só quero ler um número mínimo de livros (novos ou não) por ano, porque me sinto bem assim. Atualmente a meta está em 24 livros anuais, dois por mês. Normalmente passo ela já na metade do ano, porque também conto quadrinhos, livros acadêmicos e ensaios.
Enfim, acabei me interessando pela “proposta”, tentar ler cem livros em um ano parece bem complicado quando se pensa no tamanho de um Guerra e Paz, por exemplo. Mas ainda assim parece divertido.
Com isso, me veio a vontade de documentar todo o processo num blog, primeiro resenhando os livros, dando prós e contras e toda essa cagação de regra típica das críticas. O problema é que é chato, eu ficaria de saco cheio por volta do terceiro livro, já leio demais como crítico, já procuro muito por detalhes de técnica, narrativa, enredo, condução, personagens. Faço isso nos meus textos, queria voltar para a experiência de ler um livro, não de julgá-lo somente.
Então pensei em escrever crônicas inspiradas nos livros. Ou por algum tema dele, ou personagem, ou algo que a obra me fez pensar enquanto lia. A idéia é que além de registro, seja um exercício e, por que não, uma brincadeira.
Como podem ver aqui em cima, tem um link pra lista de livros, por enquanto coloquei apenas os que estão na minha pilha de leitura, em ordem alfabética, porque não haverá uma ordem de leitura. Aos poucos vou colocando tanto os que já tenho quanto os novos que for comprando, aceito sugestões de livros (e se vocês acham que devo ou não considerar quadrinhos) que podem ser feitos no ask aqui em cima, ou no Disqus embaixo. Caso prefiram, também podem sugerir livros no meu Twitter.
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